Sobre a conferência
A coleção constitui uma relação entre conhecimento, posse e tempo. Ao selecionar e incorporar objetos, transforma o reconhecimento do seu valor numa obrigação de conservação que ultrapassa o horizonte temporal das decisões que lhe deram origem. Cada incorporação acrescenta compromissos de cuidado, documentação e transmissão. Legamos possibilidades de conhecimento, mas também encargos e escolhas que as gerações futuras terão de sustentar.
Partindo de uma perspetiva antropológica sobre a materialidade e o tempo, esta conferência propõe pensar a coleção como uma dívida cumulativa. A expansão contemporânea das possibilidades de reprodução e arquivamento intensifica esta dinâmica. A perspetiva de um conhecimento por vir converte-se numa obrigação presente de preservação, enquanto a multiplicação de versões, registos e vestígios prolonga potencialmente sem limites a promessa de retenção. Esta acumulação inscreve-se, além disso, em relações desiguais de poder, posse e autoridade. O acesso e a participação não eliminam, por si só, as desigualdades estruturais, tal como a restituição não repara, por si só, as condições materiais de desigualdade historicamente constituídas. Numa perspetiva ecológica, conservar exige trabalho, energia, recursos e infraestruturas e, paradoxalmente, a preservação das coisas pode comprometer as próprias condições da sua continuidade. O excesso deixa de ser apenas uma questão de quantidade ou de capacidade de armazenamento, tornando-se um problema da relação que estabelecemos com a possibilidade, a criação e a vida.
Esta tensão exige reconsiderar a identificação entre transmissão e permanência, reconhecendo que a sobrevivência histórica não depende necessariamente da estabilidade material dos objetos ou da retenção dos seus vestígios. A transformação, a decomposição e a perda podem participar na emergência de outras formas de existência e relação, enquanto o direito à recusa, ao silêncio e à desistência estabelece limites produtivos à exigência de tornar tudo visível, disponível e utilizável. A destruição, quando não aquela imposta por regimes de violência e extração, emerge, assim, como um problema com alcance ontológico, epistemológico e político.
Num presente marcado por uma crise da promessa de transmissão, em que a própria acumulação patrimonial pode vir a comprometer as condições da preservação, impõe-se uma reflexão sobre a necessidade de uma nova ética da guarda e cuidado que reconsidere as relações entre posse, valor e obrigação. Uma ética que reconheça responsabilidades que excedem a propriedade das coisas herdadas e que tanto pode exigir conservar, restituir ou transmitir, como admitir a renúncia à fixação, à retenção e ao domínio. Trata-se, em última análise, de reconhecer valor sem presumir soberania e assumir obrigações sem converter a permanência numa exigência ilimitada.