
O IHA lamenta profundamente a perda do professor Rafael Moreira. Trata-se de um nome maior na História da Arte, e em particular da arquitectura, em Portugal.
A partir dos anos de 1980 e do trabalho feito para a XVIIª Exposição de Arte Ciência e Cultura, Rafael Moreira foi progressivamente transformando, de forma incontornável, os vários campos de saber a que se foi dedicando.
O primeiro, porventura o seu mais querido, foi o da história da arquitectura do renascimento em Portugal, que dotou de uma narrativa coerente, consistente e continuada, identificando os seus primeiros sinais ainda no século XV, por exemplo, nas obras encomendadas pelo Conde de Ourém e logo depois por D. João II. A arquitectura do renascimento passava assim a ter uma proto-história e deixava de ser uma eflorescência, tardia e inesperada, do reinado de D. João III. Em todo o caso, nesse tempo identificou o episódio central do bispo D. Miguel da Silva e do arquitecto que trouxe de Itália para fazer o claustro de Viseu, a igreja de São João da Foz e a capela de São Miguel-o-Anjo. As mais importantes peças construídas no país de Quinhentos – da Graça de Évora ao Bom Jesus de Valverde ou à capela das 11000 Virgens, em Alcácer do Sal – juntavam-se, depois, à narrativa de forma muito mais inteligível e com maior sentido.
O mesmo trabalho transformou o campo da história da arquitectura militar, até então domínio totalmente autónomo, trazendo-a para dentro do entendimento da cultura arquitectónica geral, reconhecendo-o como lugar maior de inovação, mostrando que os mestres que faziam igrejas e palácios também faziam castelos e fortalezas, e que as visualidades desenvolvidas na prática de uns eram naturalmente transportadas para os outros. É especialmente revelante a importância que reconheceu à viagem marroquina em que o engenheiro do imperador Carlos V, Benedetto da Ravena, foi acompanhado por João de Castilho, Miguel de Arruda e Diogo de Torralva.
O espectro excepcionalmente alargado da sua curiosidade e competência revelou-se porventura ainda melhor no vastíssimo campo da presença portuguesa em territórios ultramarinos, tendo Rafael Moreira escrito sobre Goa, Macau, Moçambique e Brasil, entre outras geografias. Também neste campo, é seu o crédito de lhe ter dado cidadania académica de pleno direito, abordando cada assunto com o rigor com que escrevia sobre a metrópole, nunca deixando de ligar as várias margens da sua narrativa.
Em todas estas três áreas, porventura as mais importantes das várias em que abriu caminho, foi profundamente inovador, deixando obra escrita de referência sobre todas elas. Informado como poucos, tinha sempre lido tudo, incluindo as mais obscuras referências, tinha digerido tudo, e com isso, foi escrevendo uma história nova da arquitectura em Portugal no período moderno, aquela com que todos hoje trabalhamos.
Além disso, trouxe-a também para dentro da sala de aula tendo sido provavelmente o primeiro em Portugal a dar cadeiras sobre arquitectura militar e sobre a arte a que chamava colonial, como componentes de parte inteira do primeiro programa universitário (um mestrado, depois alargado a licenciatura e doutoramento) em História da Arte que houve no país, na Universidade Nova de Lisboa, e que ajudou a construir. Se hoje estas matérias se ensinam em todo o país, a ele o devemos. Perdemos um mestre.