No dia 26 de março, o Diário da República* formalizou a “Classificação como conjunto de interesse público de 518 bens culturais móveis do acervo do Hospital Miguel Bombarda, dito Coleção Bombarda”. Este processo foi impulsionado pelo Fórum Cidadania Lx e pelo Grupo de Trabalho e Voluntários para a Inventariação e Classificação do acervo do antigo Hospital Miguel Bombarda, constituído em julho de 2023, do qual fez parte a investigadora do IHA Stefanie Gil Franco.
*Diário da República n.º 60/2025, Série II de 2025-03-26 – Anúncio n.º 80/2025, de 26 de março. Consultar aqui.
O IHA seed-project Tessituras da Loucura. Memória, Arte e Preservação do Património Hospitalar do Bombarda (2023), coordenado por Stefanie Gil Franco (IHA – GI MuSt), colaborou na inventariação, seleção e elaboração do texto de justificação do conjunto de mais de 300 desenhos, pinturas e textos de antigos internos da instituição, que integram o processo de classificação da Coleção Bombarda. O conjunto selecionado representa diferentes períodos da prática expressiva no Hospital Miguel Bombarda, centrando-se especialmente nas primeiras seis décadas do século XX e englobando desenhos, pinturas e textos. A seleção das obras não foi realizada com base no seu valor estético, mas sim no seu valor histórico, documental e de testemunho. Foi igualmente considerada a diversidade de textos, incluindo poemas, cartas, memoriais e diários. Algumas obras foram selecionadas pela relevância da autoria ou pelos seus aspetos formais, como é o caso da única obra de Jaime Fernandes presente na coleção. Representante da art brut portuguesa, este autor tem obras integradas em coleções de prestígio, como a Collection de l’Art Brut (Suíça), a ABCD Art Brut (França) e a Treger-Saint Silvestre (Portugal), entre outras coleções privadas.
Também se destacam as obras de Valentim de Barros, bailarino internado no Hospital Miguel Bombarda, que produziu bordados, cartões de Natal, pinturas em tela e painéis de grande formato. Neste contexto, incluem-se ainda dois desenhos de Ângelo de Lima, exemplares raros do traço do artista enquanto desenhador, bem como representações únicas dos últimos anos da sua vida como interno do Hospital de Rilhafoles.
Entre os testemunhos históricos encontra-se, por exemplo, a pintura a guache de A. Gameiro, a mais antiga da coleção, datada de 1902. Os desenhos, pinturas e demais objetos artísticos do Hospital Miguel Bombarda constituem fontes ricas em múltiplos níveis informacionais, documentando mais de 100 anos da história da instituição e oferecendo contributos para estudos nas áreas da psicologia, história da psiquiatria, história da arte e outsider art. Contudo, acima de tudo, estas obras preservam a memória de centenas de utentes que, através das suas expressões artísticas, registaram as suas experiências e subjetividades, frequentemente invisibilizadas pelo isolamento hospitalar. Os objetos artísticos funcionam, assim, como testemunhos destas existências, contribuindo para a compreensão das práticas asilares ao longo do século XX.
O trabalho realizado no âmbito do IHA seed-project pode ser consultado no artigo “Entre o marginal e o institucional: a outsider art e o arquivo psiquiátrico do Hospital Miguel Bombarda”, DOI https://doi.org/10.20396/rhac.v5i1.18643.
